“Hermanos y hermanas ....la palabra sale del Amazonas y se echa a andar por toda a América, y en todos los pueblos se preparan largos viajes, como esos que se emprendem desde el dolor a la esperanza – Qual es el motivo de este desbarajuste continental? – II Encuentro Americano por la humanidad y contra el Neoliberalismo”.(Exército Zapatista de Liberacion Nacional, México, junho de 1999).
“ Cologne , 16 june 1999 – around 450 representatives of peoples movements from south and the east will arrive to hold protest against the world economic summit. They have been participate in a programe ogf actions, meetings and demonstrations called “Inter continental caravan for solidarity and resistance”.(From Charlie.asta.RWTH-Aachen.DE)
“Somos críticos, e não estamos sós
Lançamentos do Attac na USP e na PUC de São Paulo visam atos em favor de uma universidade voltada para a transformação social – uma universidade de combate”. (Resenha da internet de 9 de março de 1999).
Tratam-se de anúncios de encontros de resistem à escalada neoliberal que alcança níveis de desagregação do tecido social, da identidade humana com o trabalho e da deterioração das condições de vida inimaginados. Como diz Hobsbaum há uma quebra de elos entre gerações, fim dos padrões de relacionamento social humano – um individualismo asocial absoluto.
Tudo isso expressão de uma racionalidade de comercialização, mercadorização do homem, da sociedade e da terra, com consequências destruidoras para a vida no planeta: a condenação de enormes contingentes e até continentes à miséria, a poluição, o desequilíbrio ambiental, a falta de perspectivas para as gerações futuras.
Em nome de um processo de modernização do mundo, ao qual todos precisam se enquadrar, sob a égide do avanço tecnológico que todos precisam acompanhar, emerge o termo “Globalização” para significar de forma sintética um novo comportamento dos capitais, estados, sociedades, homens mulheres e crianças. Para Bourdieu (1998), uma “matracagem mediática”um mito, uma idéia forçada que se torna uma crença envolvida pela idéia de inevitabilidade. No fundo trata-se segundo o autor de um programa científico do conhecimento transformado em projeto político, uma “sociodiceia” justificativa teórica de privilégios.
É essa mesma característica que para Bourdieu torna possível a desmontagem desse discurso e montagem de uma circulação de idéias, sustentada por uma circulação de poder, na medida em que “a força da autoridade científica sobre os movimentos sociais é muito grande e produz uma forma de desmoralização”.
Dessa forma se criaria um contra discurso, uma outra mediação simbólica para combater, impedir os discursos fatalistas que visam transformar o diagnóstico, as tend6encias econômicas em destino. A necessidade desse desvendamento dessa desconstrução é o que se coloca no centro da estratégia desses encontros internacionais de n, ao mesmo tempo que visam se articular em torno de ações de resistência.
Sintomas de esgotamento do projeto Neoliberal: as vozes de dentro.
Se de um lado o esgotamento do neoliberalismo tem sido apontado por alguns cientistas sociais, historiadores e economistas, torna-se importante destacar o fato de que começa a emergir de dentro dos arquitetos e mantenedores do projeto críticas e contra tendências.
Joseph Stiglitz, vice presidente senior e economista chefe do Banco Mundial em conferência proferida em 1998, fala de um pós consenso de Washington. Segundo ele os quatro pilares principais, a privatização, o controle da inflação, o estado mínimo e a liberalização do consumo, não é mais consenso. Emerge um novo consenso, que não é baseado em Washington, e que incluiria aspectos relativos ao desenvolvimento humano, educação tecnologia e meio ambiente. Stiglitz ao criticar a liberalização do mercado financeiro, ressalta que ingredientes importantes para um desenvolvimento a longo prazo foram deixados de lado e em relação aos quais Washington não tem resposta: a política pró competição, a transfer6encia de tecnologia, a transpar6encia nas informações e a educação.
Para fundamentar sua posição Stiglitz mostra que os pilares básicos não se verificaram conforme os pressupostos. Por exemplo com relação à inflação a idéia era que: inflação alta é custosa, uma vez alta tende a se acelerar descontroladamente, quando recrudesce a reversão custa muito caro. Dessas premissas apenas a primeira se verifica quando a inflação ultrapassa 40% ao ano. O mesmo coloca em relação à privatização que foi feita sem planejamento, sem criar a infra-estrutura institucional adequada (ag6encias regulatórias e mercados competitivos), o que gerou ineficiência, aumentos dos preços e favoreceu à corrupção. Ao criticar a premissa de que o mercado é melhor que o estado, coloca que o papel do estado é importante na regulação da política industrial, segurança social e bem estar, devendo atuar também sobre o mercado corrigindo suas falhas.
Will Hutton(1998) economista, um dos principais mentores de Tony Blair, tem uma visão semelhante quando diz que o papel do estado é incentivar a economia de longo prazo com um dinamismo sustentável, além de permitir uma distribuição mais equitativa de custos e benefícios sociais da prosperidade. Também concorda que a privatização gerou ineficiência e menos competição (cita o exemplo do transporte público brit6anico que piorou o serviço e ficou mais caro). Ressalta que o efeito das políticas macroeconômicas do consenso de Washington sobre a economia e a sociedade vão além dos objetivos das partes contratantes, impõem custos a terceiros e geram uma imprevisibilidade. Propõe que sejam criados sistemas de seguros coletivos, contra riscos coletivos envolvendo a saúde, educação, habitação e emprego; criação de um direito de propriedade onde as obrigações com relação à sociedade sejam embutidas.Hutton considera que o trabalho não é apenas fonte de ganho, mas também de habiblidades, relações pessoais, afirmação social e existencial, sendo o objetivo de qualquer governo democraticamente eleito a sua promoção.
O debate do pós neoliberalismo: a visão dos cientistas sociais.
A partir da percepção dos sinais de esgotamento do neoliberalismo esse debate se dirige no sentido de afirmar que não chegamos ao fim da história com a vitória do capitalismo sobre o socialismo, que o que existe é mais uma tentativa de feitichizar o mercado financeiro. Diante do dilema colocado por Przeworsky acerca da irracionalidade do capitalismo e da inviabilidade do socialismo, segundo Atílio Boron(1996) de que a irracionalidade do capitalismo é insolúvel mas a inviabilidade do socialismo é provisória; e de que mais do que nunca é necessário desenvolver uma estratégia de longo prazo que envolva um conjunto de valores e um projeto com base em experi6encias concretas. Reconstruir o público sem cair no estatismo, o espaço público tem caráter estratégico que são os espaços de sociabilidade, como por exemplo a BBC e o chanel 4 que são sistemas de comunicação alternativos financiados por associações civis.
Para Goran Theborn(1996) o pós neoliberalismo não é nem o socialismo nem uma nova etapa do capitalismo, é uma situação política e social em que os desafios e tarefas da justiça social, os problemas do meio ambiente, os direitos humanos estarão no centro do discurso político. Isso colocaria uma nova situação para a esquerda: a busca de novos referenciais além dos clássicos para entender as mudanças culturais, reconhecer o valor da capacidade de gerenciamento da produção, da macro economia e da macro política, ampliar o discurso de tal forma a incluir os interesses e experiências de trabalhadores e desempregados, especial atenção aos novos movimentos sociais de tend6encias progressistas, considerar potenciais progressistas nas camadas médias e classes burguesas( Tendências a uma solidariedade individualista – compromisso solidário sem a inserção coletivista e ainda o egoismo racional daqueles que reconhecem a irracionalidade dos custos sociais para ricos e pobres da miséria e da violência).
Finalmente Perry Anderson(1996) sugere que se aproveite algumas lições básicas do próprio discurso neoliberal: 1) Não ter nenhum medo de estar absolutamente contra a corrente(Ao lançar sua teoria Hayek foi tratado como excêntrico, como louco) 2) Não transigir em idéias, não aceitar diluir princípios( Foi o radicalismo, a dureza intelectual da teoria neoliberal que lhe assegurou vida tão vigorosa – um repertório amplo de medidas radicais.3) Não aceitar nenhuma instituição estabelecida como imutável( Era impensável desempregar 40 milhões sem instabilidade social e redistribuir renda dos pobres para os ricos). Seria em síntese trabalhar com a certeza de que como dizia Marx “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Para Anderson são três os elementos constitutivos do pós neoliberalismo: os valores, principalmente da igualdade, que não significa uniformidade, mas de acordo com Marx, “a cada um segundo suas necessidades, de cada um segundo suas capacidades”; a propriedade – plena distribuição de dividendos a cada cidadão tirado do lucro médio das empresas, como também a propriedade coletiva a exemplo das empresas municipais e de aldeias da China. E mais democracia, dos meios de comunicação e do sistema político. Esse conjunto de propostas configuraria um neo socialismo baseado em liberdade igualdade e solidariedade.
O papel do popular e dos movimentos sociais.
Maffesoli (1997) traz à cena a idéia de que apesar da academia enxergar as efervescências sociais como um sonho sem consistência e de desprezar o conhecimento popular por não ser unificado e ser subjetivo, por isso não científico, a realidade mostra, dá numerosos exemplos de processos de agrupamentos de diversas natureza que testemunham um aspecto “não racional” e que se desenvolvem de maneira exponencial. O processo de desagregação das estruturas sociais traduz um momento de fusão e de confusão que como todo período de transição carrega o que tem de melhor e pior. Entretanto os elementos, parcial ou totalmente originarão uma nova forma nascente. Nesses momentos o princípio do poder está em questão – é quando a potência popular retoma os direitos e lembra que dela emana toda e qualquer delegação. Tendo tomado consciência da saturação do político, a sociabilidade deve decretar outra ética pública e por isso, mesmo que inconsciente, o político é sacrificado. A energia coletiva, a força marginal do estar junto, busca uma via sempre mantendo a exigência básica de toda a sociedade: aprender a viver saindo de si com o outro: “A gente explode e faz rebentar os controles que o poder havia elaborado antes e imposto progressivamente para canalizar toda a vida social; os valores reconhecidos desabam, os dogmas convertem-se em metafísica, as fronteiras vacilam e os impérios enfraquecem”. Então para Maffesoli não temos mais um corpo social universal gerido por regras comuns mas pequenos corpos fragmentados, tribos misteriosas, acomodando-se do jeito que podem, umas às outras.
Esses movimentos são interessantes na medida em que os valores praticados contaminam a totalidade do corpo social, de um forma mais ou menos discreta, com freqüência em tom menor ou escondida, até ser despertada por outra irrupção. O corpo social parece acionar uma duplicidade antropológica; a conformidade, escondendo uma abulia social, uma irresponsabilidade crescente. Para sobreviver deve-se avançar mascarado e não se desvelar de nada, nem para ninguém, nem para si mesmo. Trata-se de um jogo duplo, onde o homogêneo é o racional, quantificável e previsível e o heterogêneo identificado como o marginal, o irregular, a desordem, o erro, mas também uma maneira de conservar a si mesmo individual e coletivamente. A duplicidade seria um instinto vital que asseguraria de uma só vez coerência e continuidade do ser: “Pode-se dobrar sem quebrar, aceitar as ideologias sem convicção – acionar um mecanismo de restrição mental”. De um lado a razão mecânica, do outro a imaginação, a desordem vital e a organicidade que triunfarão.
A aparente adesão reforça na prática a recusa total de integração à ordem do sistema – compromisso não é conformidade. A imagem marxiana da “velha toupeira que cava sem descontinuidade suas galeras subterrâneas, e assim mina o solo sobre o qual repousam as instituições”. Essa é para Maffesoli a expressão da autonomia popular - em síntese o consentimento “que não deixa de pensar o contrário” é uma estratégia de temível eficácia, dinamita o elemento sobre o qual o poder resiste através do tempo: a fascinação. Para ele nenhum regime resiste por muito tempo aos efeitos do distanciamento interior produzido pelo desprezo, essa distância explode num levante incontrolável ou exprime-se em desafeição, com todos os perigos que lhe são inerentes.
Melucci( ) com base no conceito de transformismo molecular de Gramsci, ao se referir aos novos movimentos sociais traz a idéia de redes submersas que seriam verdadeiros laboratórios de recodificação de valores, produção de sentido, de significados coletivos, as quais gerariam possibilidades plurais de escolhas renovadas e identidades múltiplas, motivo pelo qual possuem um grande potencial de articulação coletiva. Traz também a idéia de que o agir é aprender é transformar a própria ação, é aprender a aprender. O pertencimento e a identidade, o eu na ação criaria a identidade coletiva, onde reside a liberdade.
A centralidade do trabalho.
Se aceitamos que a sociedade nesse final de século como diz Guiddens(1998) é analiticamente diferente no sentido que expressa uma busca de identidade individual e coletiva, que envolve questões de étnicas, de g6enero de direitos humanos e qualidade de vida, e considerando que a crise do projeto neoliberal se fez sentir de forma mais radical para a sociedade no âmbito do trabalho, este se coloca no centro do processo de resgate da cidadania. Nesse sentido é que a concepção do trabalho humano e consequentemente um novo papel do movimento operário se tornam alvo de um proposta de uma utopia concreta nos termos de Alan Bihr(1998).
A utopia concreta tal como propõe Alan Bihr parece ser um desaguadouro natural das idéias expostas acima, ao integrar as dimensões dos movimentos moleculares à totalidade da mudança social, também indo das considerações internas ao trabalho à sua exterioridade à dimensão cultural, como também considerando o âmbito do coletivo e o do individual. Sua proposta ao ter no centro da análise o papel do movimento operário na reconstrução de uma nova sociedade, coloca inicialmente como via de renovação uma nova concepção do trabalho que seria trabalho para todos, trabalhar menos e de outra maneira, resgatando o engajamento de todos na produção social, desenvolvendo atividades que integrem concepção com execução e que permita um tempo livre para o desenvolvimento cultural e para o lazer. Propõe ainda uma renda social garantida que seria um salário pleno pelo trabalho socialmente necessário, ao contrário de uma renda mínima assistencialista e reforçadora da inatividade.. Esse trabalho estaria inserido num contexto de produção orientada socialmente, a partir de critérios definidos de utilidade social.
Para Bihr a tarefa mais complexa do movimento operário não seria apenas uma economia alternativa mas também uma sociabilidade alternativa, estimulando redes de práticas sociais, fora da influência capitalista. Seria o incentivo à associação livre, autogestionária, a partir de projeto que reflitam as necessidades da diversidade humana, o que se constituiria num laboratório permanente de experimentação social. A finalidade última seria a afirmação de uma nova individualidade social, que ultrapassa o caráter privado e aspira apropriar-se de maneira ativa do sentido das relações múltiplas estabelecidas com sua própria sociedade.
Como estratégia Bihr se afina com as possibilidades das redes sociais constituírem contratendências. Sugere aproveitar em primeiro lugar as próprias contradições do capitalismo, para ele o mesmo processo que tende a desapropriar o indivíduo de qualquer controle sobre suas próprias condições de existência, abre simultaneamente a possibilidade de uma individualidade social capaz de se reapropriar do sentido , do conteúdo das relações com o mundo, com os outros, consigo mesmo. Nesse sentido quer seja pelas redes sociais quer seja pela tecnologia a sociedade teria a chance de estar cada vez mais conectada e integrada.
A proposta central é que essa organização social se transforme em contra poderes tendo o movimento operário como motor, idéia com a qual concorda Bourdieu(1999) ao propor um movimento social europeu por considerar ser o movimento social mais bem aparelhado e que melhor desenvolveu códigos de comunicação social. Por contra poder Alan Bihr define como instituições capazes de contestar na prática a monopolização da força social – um poder ao mesmo tempo complementar e antagônico.
Assim, por dentro do capitalismo e ao mesmo tempo ampliando seu raio de ação para a criação de associações, empresas, instituições, agindo em conexão com outros movimentos social, o movimento operário não só constituiria aos poucos uma sociedade alternativa, ou uma contra sociedade com base na existência dessas redes de cooperativas e movimentos sociais, gerindo os planos internos da vida social e econômica até assumir por completo a gestão da sociedade em que a ênfase seria dada à expressão individual através do coletivo e ao associativismo no lugar da dominação.
Epílogo provisório.
As vozes de dentro, as vozes de fora, as experiências do mundo da vida cotidiana, as teorias acadêmicas, trazidas aqui podem ainda não soar como sinfonia, mas parecem apresentar alguma sintonia de percepção de que há uma revolução silenciosa em curso, um processo demorado de construção de alternativas, que demandará uma soma razoável de energia no delineamento de um projeto de longo prazo. E o que é mais entusiasmador é o sentimento que fica de que não precisamos ficar no lugar de amargar a própria vida, ou de achar que é inexorável entrar no jogo competitivo onde todos ameaçam a todos, mas que não precisamos abandonar nossos ideais de liberdade, paz e justiça social, de que talvez precisemos resignificar nossa visão de mundo. Mas sobretudo fica a certeza de que como diz a poesia de Silvio Rodriguez “renunciar à luta é eternizar os deuses do ocaso”.