O debate sobre a globalização e as mudanças no âmbito do trabalho normalmente se apresenta permeado de posições dicotômicas acrescidas de julgamentos de valor, de uma mistura de conceitos, muitas vezes com a idéia implícita de um fenômeno autônomo, ou então reduzida a uma estratégia de natureza ideológica.
Esse fato acrescido à complexidade envolvida, à velocidade de implementação de novas práticas sociais e ao fato de sermos sujeitos participantes, muitas vezes atordoados com seus efeitos, torna extremamente difícil, o movimento de “tomar distância” e obter uma apreensão, uma apropriação dessa complexidade, além dos recortes dominantes, rompendo assim com a familiaridade acrítica.
Essa dificuldade tem levado na maioria das vezes a uma atitude frente à Globalização e ao desemprego por exemplo de que se trata de uma realidade que veio para ficar, de um processo inexorável, justificável em nome do desenvolvimento e da modernização, dotado de uma linearidade e inevitabilidade inquestionáveis (Druck, 1996).
Segundo Antunes a idéia de que a lógica do capital é inevitável e nos resta adequarmo-nos a ela, não pode ser aceita acriticamente;
a inevitabilidade se desenvolve se olharmos de dentro de sua própria lógica ou se participamos dela. (grifos meus)
De um lado, temos alguns porta vozes dessa lógica que se colocam como arautos das maravilhas da globalização, da revolução tecnológica e das inovações na gestão do trabalho particularmente oriundas do modelo japonês. Enaltecem o fato de que só a concorrência internacional é que pode tornar as empresas competitivas, mesmo que isso represente a sua extinção. Como diz Souza, (1998) vice presidente da Odebrecht e professor da Warthon School of Management nos EUA :
“Já se observa no Congresso americano e em alguns segmentos algumas manifestações do que se convencionou chamar de globofobia: a recusa do congresso de conceder autoridade ao presidente para negociar acordos comerciais sem o direito de emendas (o famoso fast track, prática corriqueira em mandatos anteriores).
E acrescenta:
“Apesar de contribuir para os sentimentos de globofobia, o processo de aquisição de empresas não é necessariamente negativo para a economia do país, pois a presença intensa de multinacionais em atividades produtivas pode representar uma revitalização para a competitividade nesses setores.
Ainda há a formulação de que a globalização é um fenômeno paradoxal, pois apesar de buscar uma união comercial e da informação, aciona o desejo de identidade, de auto governo o que explicaria os conflitos étnicos. De que quanto maior a economia mais poderosos são seus protagonistas menores - 50% do PIB americano é hoje representado por empresas com 19 empregados - e de que a revolução tecnológica – telecomputadores pessoais para todos, unidos pela rede da internet que no ano 200 conectará um bilhão e meio de pessoas - é o motor acionador desse processo. (Naisbitt 1994).
Enquanto isso outros campos do conhecimento como as Ciências Sociais, História e Filosofia, lançam um outro olhar que revela uma problematização desses fenômenos. Como por exemplo Gorender(1997), que ao fazer uma análise do setor automobilístico chama atenção para o uso cada vez maior da estratégia de
global sourcing que está causando a falência de empresas do setor de autopeças nacional, podendo levar a uma crescente desnacionalização do setor automobilístico, com a uma extinção do setor de auto peças basicamente de capital nacional.
Outras visões apontam para os efeitos destruidores da globalização como a hegemonia predatória do capital financeiro, o desemprego em massa, a exclusão social, o retorno e generalização de formas precárias de trabalho, a falência de valores de justiça social e solidariedade, a desintegração do tecido social assim como o esgotamento de toda essa lógica, ou seja do crescimento econômico centrado no mercado.(Beaud,1995; Hobsbaum 1995; Kurz, 1993; Gil,1997; Arrighi, 1996) e outros.
Se concordamos que é importante um esforço de compreensão do que acontece antes de efetuar um julgamento, Druck, 1997 dá uma contribuição fundamental quando conceitua separadamente o que via de regra vem sendo colocado de forma misturada dificultando o desvendamento da rede de determinações.
Segundo ela, globalização, neo liberalismo e reestruturação produtiva são fenômenos diferentes embora interligados:
A Globalização é um movimento de caráter estrutural do capitalismo, numa fase em que suas principais tendências – presentes desde seus primórdios – são levadas às últimas conseqüências e se desenvolvem no seu limite máximo. Constata-se uma radicalização dos processos de concentração e centralização de capitais, assim como simultaneamente se difundem micro, pequenas e médias empresas com a formação de redes de subcontratação, exemplos claros da dispersão de capitais. No interior desse processo destaca-se a transnacionalização de empresas através da “interpenetração patrimonial” entre as grandes burguesias industrial e financeira das principais economias capitalistas.. Simultaneamente ocorre o super dimensionamento da esfera financeira, cuja lógica vai se sobrepondo à lógica produtiva, implicando no reforço do poder dos bancos e instituições financeiras.
Assim como a globalização a reestruturação produtiva é um movimento de caráter estrutural que ocorre no plano da produção e do trabalho. É uma resposta a um determinado padrão de desenvolvimento capitalista que entrou em crise: o fordismo. Concretiza as necessidades da globalização, através da reconversão dos setores industriais com ênfase nos de tecnologia de ponta, das novas tecnologias de automação e os novos padrões de gestão e organização do trabalho, tendo como um de seus principais objetivos a flexibilização do trabalho afim de obter altos ganhos de produtividade e uma nova relação entre empresa e sindicato.
Com relação ao neo liberalismo, trata-se de um projeto de natureza econômica, política e ideológica sustentado fundamentalmente no “culto ao mercado”, que ao se tornar hegemônico consegue impregnar toda a sociedade, alterando os padrões de solidariedade do tecido social. Assim constata-se o reforço do individualismo em contraposição à ação coletiva; estimula-se a concorrência em detrimento da solidariedade social; difunde-se uma visão privatista da sociedade onde busca-se a desmoralização de tudo que é público. Defende-se a inexorabilidade dessa ordem social.
É no âmbito do trabalho que se faz sentir mais claramente essa interligação, quando o desemprego passa a ser a epidemia do século, a precarização do trabalho retorna a níveis históricos do início do século com o uso do trabalho infantil e quando se observa a generalização do modelo japonês da qualidade total e da terceirização reeditando uma racionalidade principalmente nos países periféricos muito mais perversa que o fordismo, pelo ritmo de intensificação , controle sobre o trabalho, adoecimento e desmantelamento das instâncias de representação dos trabalhadores.
Hinkelammert,(1995) diz que a racionalidade da eficiência dos meios em detrimento dos fins, subjacente ao mecanismo de competitividade, cria forças compulsivas que tornam o mecanismo de destruição global absoluto. Isso gera um poder onipotente em nome da eficiência, que ao derrotar todos os tipos de resistência cai na impotência dessa onipotência
Bom ou ruim, novo ou velho, autônomo ou acionado por uns poucos atores hegemônicos mundiais, o que emerge independente do campo onde se leva esse debate é uma inquietação,
um “mal estar” que segundo Filgueiras, 1997 está ligado a destruição de um modo seguro de viver construído entre a segunda guerra mundial e o início dos anos 70, quando entra em crise a economia americana e vai em busca de novas formas de recuperação de sua produtividade.
Essa inquietação está presente nas colocações de quem participa do comando do processo, ou seja vem do Congresso americano quando começa a restringir as ações internacionalistas e globalizantes do poder executivo, quando por exemplo recusa o apoio à casa branca no aporte de US$ 3,5 bilhões adicionais ao FMI para a expansão de suas atividades de salvamento da Coréia do sul.(Souza, 1998).
Outras vozes também surgem como a do Secretário de trabalho norte americano cuja declaração alertou para o fato de se estar levando longe demais a destruição dos direitos dos trabalhadores como também da necessidade de fortalecer os sindicatos.
Os recentes acontecimentos da crise asiática, da quebra da economia russa e da ameaça que paira sobre outros mercados como a China e América Latina nos dão uma demonstração de onde chegou o movimento especulativo dos capitais financeiros, a sua auto destruição e com ela a de sociedades inteiras, é como se a acumulação sucessiva tenha chegado ao seu limite gerando um excedente tão alto que passa a se colocar fora do controle, colocando em cheque a essência do modelo capitalista de crescimento constante, controle do trabalho e dinâmica organizacional e da tecnologia (Harvey, 1992).
E por falar em tecnologia até neste campo, visto como incontrolavel no seu processo de modernização, já emerge o pensamento que tem limites, não só do ponto de vista do seu custo mas também do número de interrupções, que deve ser melhor analisada, porque há necessidade da presença do homem por mais avançada que seja a automação eletrônica(Lojkine, 1995). Reforça-se com isso segundo os pesquisadores do MIT, a orientação de se dar apoio ao operário no chão da fábrica, ao invés de simplesmente substituí-lo pela máquina.
A conjunção de crises, crise da economia, crise do emprego, crise do trabalho, crise dos benefícios sociais, crise ambiental, crise dos valores e ideais, trazidas pela globalização e sua expressão concreta na mudança do trabalho, que o neo liberalismo tratou de consolidar, implica também numa crise de modelos? Crise de alternativas? É a crise total? O sujeito coletivo, que em Marx eram os operários estaria destruído? Haveriam novos sujeitos?
São perguntas inquietantes, cujas respostas estão em construção e passam por um estágio de difícil explicitação ficando mais no terreno da declaração de valores. Kurz fala na emergência de uma razão sensível, Gorender 1997, alerta dizendo que todos, trabalhadores, liberais, intelectuais estamos no mesmo barco e que saibamos dirigi-lo se não exercitaremos a solidariedade dos náufragos. Os sindicalistas reclamam o desenvolvimento da lógica da solidariedade. Para Antunes, o desafio primeiro é resgatar o sentimento de pertencimento de classe; ressalta a necessidade de quebrar com a lógica do capital, que depende de alguma forma do trabalho vivo e por isso
não dá para dizer que o sujeito coletivo tenha desaparecido.(grifos meus).
A idéia de que precisamos desenvolver alternativas, parece que toma corpo. Utopias explícitas, segundo Kothe,1997 para quem a discussão tem se restringido ao capitalismo, esquecendo formas alternativas de socialismo. Em vez da espoliação capitalista de todos em benefício dos proprietários poderia ser pensado um sistema de empresas controladas pelos operários ou observar melhor porque a economia da china é a que mais se desenvolve no mundo.
Por outro lado, as tensões que vivemos nessa década de 90, são positivas porque vêm do mundo do trabalho, porque fazem com que os trabalhadores percebam que maior participação e envolvimento não tem impedido a destruição dos direitos trabalhistas.(Antunes,1997). Como também deverão se constituir com o seu aprofundamento, no motor da
re articulação e re ação social.
O que emerge é a necessidade de aprofundar o debate e começar a explicitar mais as reflexões sobre as alternativas, do movimento sindical surge a consideração de que os intelectuais coletam dados da realidade, analisam, fazem constatações mas não propõem saídas além dessas constatações.
Artigos recentes (Agosto de 1998) publicados pela OIT apontam para a necessidade de uma união intelectual em torno do trabalho, do fato de não permitir que decisões sejam apenas tomadas dentro do estado ou das organizações. Os teóricos da Administração de Empresas de Harvard apresentam na década de 90 um discurso diferenciado, que se coloca de certa forma à margem das receitas dominantes da Globalização, como é o caso de Prahalad, Bartlet e Sherman nos respectivos livros: “Competindo para o futuro”, Gerenciando além de fronteiras” e “Controle seu destino ou alguém o fará”
Por outro lado, o mapeamento de formas de organização do trabalho e da produção, de alternativas que sobreviveram ao massacre neo liberal, pode ser útil a exemplo do que fazia o centro de Qualidade de Vida de Ontário no Canadá na década de 80. Nesse sentido é exemplar a experiência da região de Emilia Romagna que representa um modelo entre social democrata e socialista diferente do socialismo centralizado europeu.
Essa experiência baseia-se num modelo produtivo de pequenas organizações de artesãos, articulados numa poderosa confederação de âmbito nacional que promove as condições de financiamento da produção, desenvolvimento tecnológico, e desenvolvimento de recursos humanos: pequenas empresas; cooperativas e um sistema de terceirização das grandes empresas, onde o terceirizado ganha um salário superior do que o seu colega da empresa central. O estado, de orientação política social democrata ou socialista dependendo da região, é um agente promotor da economia local, orientado por um projeto de investimento baseado nas necessidades da comunidade e na assunção dos serviços de saúde e educação. Há uma distribuição de renda equitativa, onde o sistema regula e impede a emergência de privilegiados, ao tempo em que evita o desemprego contando com as facilidades do modelo estruturado em pequenas células com flexibilidade suficiente de adaptação às oscilações do mercado.
Importante também observar a região dos países escandinavos que tem uma tradição de utilização do modelo sócio técnico inglês, e cujos programas ficaram conhecidos sob o título de Qualidade de Vida no Trabalho, que na década de 80 floresceu no Canadá , EUA e países escandinávos. Essas experiências vem sendo sistematizadas pelo centro de Qualidade de Vida de Ontário Canadá. Foram experiências desenvolvidas em parceria com os sindicatos que começavam a discutir a organização do trabalho, pela escolha da tecnologia que seria mais adequada para produzir determinado produto, mas que também fosse adequada aos seres humanos, o que questiona o mito do determinismo tecnológico.
Com relação à questão da reconfiguração dos sindicatos, vemos de um lado uma cobrança muito grande dos outros atores sociais, uma consciência de mudança que já se configura, mas está permeada por muitas dúvidas e muitas controvérsias acerca dos caminhos(imposto, sindical, justiça do trabalho, sindicato por empresa etc), por parte das lideranças sindicais que consideram por outro lado que está havendo uma expectativa de papel que extrapola as suas finalidades, e perguntam pelo papel dos outros agentes como os partidos, a universidade.
Um ponto também em pauta nessa discussão é a articulação dos sindicatos com os movimentos sociais. Nesse sentido é importante refletir sobre um movimento que cresce em todo o mundo, e que está se chamando de “Economia Solidária” que é a sociedade civil organizada em instituições com objetivo social, formas plurais de trabalho, participação de diversos atores, várias fontes de recursos e com a construção conjunta da oferta e da demanda. Tendo como principais finalidades: empowerment – poder dado pelo estado à sociedade; parceria; coesão social ;emprego; construção da cidadania
Existem poucos dados sobre o quantitativo dessas organizações mas o que se tem é que na França são 170.000, na Alemanha 50.000 e na América latina onde as informações não são precisas 7.000.
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A reflexão sobre esses dados e outros ,sobre os movimentos sociais acontecendo no momento, como o MST, que contém em si a quebra da lógica instituída, ao ocupar terras e em seguida negociar; o movimento Zapatista que se coloca como força de resistência ao poder e que tem como projeto social, “uma sociedade onde todos caibam”, sem necesariamente definir um modelo baseado em normas ou relações de produção universalmente válidas, (Hinkelamert, 1995), fortalece a idéia de que é possível uma reação social que crie um espaço para o desenvolvimento de uma outra lógica que se oponha à lógica do capital , do mercado e do consumo acima de tudo. Na direção do que propõe Michael Beaud,:de recriar espaços de gratuidade e de pequenas produções familiares e comunitárias, espaços de bens públicos, de reinstaurar sistemas de solidariedade, de redistribuicão da produção social. Definir estratégias que sejam respostas às necessidades urgentes (água, habitação e saúde) e que suscitem o desenvolvimento do emprego contribu indo para promover formas de vida não destrutivas de recursos e do equilíbrio da terra
Somos todos homens e mulheres de bem, mas precisamos da ousadia dos canalhas, para que não sejamos objeto de todo esse processo que nos atinge a identidade, que não paraticipemos dessa marcha para o suicídio coletivo, para que possamos recuperar o protagonismo do nosso destino.
Só assim poderemos recriar para nós mesmos e para as gerações futuras as bases para a construção não apenas de uma sobrevivência penosa, mas de uma vida digna, respeitadora do potencial dos seres humanos, que se conjugado coletivamente, é perfeitamente capaz de gerar como dizem os Zapatistas,
uma sociedade onde todos caibam.
E como diz Antunes:
“A lógica social seria outra, menos regida pelo capital e mais pela cidadania. O trabalho estranhado seria transformado em trabalho social: fonte e base de emancipação, numa sociedade voltada para a criação de coisas úteis, que suprime a distinção entre trabalho intelectual e manual.
Onde o trabalho não seria apenas um meio de vida mas o primeiro carecimento de vida”
Referências bibliográficas
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HINKELAMMERT, F.J. “Una sociedad en la que todos Quepan: de la impotencia de la omnipotencia”. Diário Aleman, Schleswiger Nachrichten, 1995 – 27 III
HOBSBAUM, E. Era dos extremos – o breve século XX – 1914-1991,SP, Companhia das letras,1995”O século: vista aérea- olhar panorâmico, pp 11-26; cap. 19 – “Rumo ao milênio”, pp 537-562.
KURZ,R “As luzes do mercado se apagam: as falsas promessas do neo liberalismo ao término de um século em crise”, In: Estudos avançados, vol 7,n. 18, 1993, IEA/USP,pp 7-41
NAISBITT, J. “O paradoxo Global”. Rio de janeiro, ed. Campus, 1994.
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